terça-feira, 3 de abril de 2018

Tudo me lembra você




Acabei por achar sagrada a desordem do meu espírito
- Arthur Rimbaud -


Caindo para o abismo ou caindo do céu
Não importa
É sempre como o brilho da estrela que morreu

Não posso discernir o certo do errado
Mas o falso do verdadeiro

É como a morte do filho que viveu 30 segundos
É como a ponte levada pela força das águas

É como queimar o bolo de aniversário faltando uma hora para a festa começar
É quando a festa acaba e não tem mais aniversário
É quando amanhece e tudo o que foi parece não precisar ter sido
É quando tudo deveria ter sido, mas nada realmente foi
É quando tudo poderia ter sido um pouco mais para esmaecer-se um pouco menos

Como tudo se esvai, meu Deus: o café que tomei, a água com que me lavei, o beijo que eu lhe roubei... 

É quando a gente pensa no que deveria ter dito, mas logo pega no sono e se esquece de tudo o que aconteceu
É quando a gente se lembra do que aconteceu e se esquece do que deveria ter dito

Alzheimer ao contrário é a febre do amor
São espinhos que cortam a pele
Como o Bem são frases riscadas nas águas

Como pode, meu Deus, ser tão difícil de esquecer-se de algo sem importância que se acabou e por isso mesmo não deveria ser importante, mas que não lho tendo feito inteiramente fica nesta agonia mnemônica como se importante fosse?

Água esconde o corpo nu e exposto
A mesma água a cujo abismo caía
Mas te soergui e me apaixonei por ti
E fomos um de corpo e alma
Até que o rio virou mar
E não mais te vi
A não ser cair de um céu inesperado
No brilho opala do que não mais existia
Como podia, pois, haver de brilhar, não sabia...

As águas refletem-na durante a noite
Quando desce no álgido vapor noturno
Cada vez que a água passa é um pouco de tudo que fica mais longe
Cada vez que anoitece é um pouco do nada imóvel na face da mesma água que passa

Tudo me lembra você
(O brilho vivo da estrela que morreu)
Todas as noites eu acho que alguma estrela vai cair e te trazer de volta
Até que volta a ser dia e na água só vejo o mesmo rosto abatido
Do céu só cai esta chuva fininha
Recosto-me no travesseiro
Abraço o cobertor como se fosse o teu corpo
Sem saber como este brilho do que morreu também há de apagar-se um dia
No cerrar peremptório dos olhos fatigados

Danillo Macedo 



O LETES


Trad: Ivan Junqueira

de Charles Baudelaire


Vem ao meu peito, ó surda alma ferina,
Tigre adorado, de ares indolentes,
Quero aos meus dedos mergulhar frementes
Na áspera lã de tua espessa crina;

Em tuas saias sepultar bem junto
De teu perfume a fronte dolorida,
E respirar, como uma flor ferida,
O suave odor de meu amor defunto.

Quero dormir o tempo que me sobre!
Num sono que ao da morte se confunde
Que o meu carinho sem remorso inunde
Teu corpo luzidio como o cobre.

Para engolir-me a lágrima que escorre
O abismo de teu leito nada iguala;
O esquecimento por teus lábios fala
E a água do Letes nos teus lábios corre.

O meu destino, agora meu delírio,
Hei de seguir como um predestinado;
Mártir submisso, ingênuo condenado,
Cujo fervor atiça o seu martírio,

Sugarei, afogando o ódio malsão,
Do mágico nepentes o conteúdo
Nos bicos desse colo pontiagudo,
Onde jamais pulsou um coração.


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