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Ela e Ele

Acabei por achar sagrada a desordem do meu espírito - Arthur Rimbaud - Ele se sente atraído por ela como, por Vênus, Adônis ...

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terça-feira, 24 de abril de 2018

O amor e o lápis




Lápis é todo madeira ocre
Sem a vida que nutre para acasalar-se
Promíscuo com vários papeis
Vida que é viva quando avança pela vulva dos olhos
E penetra o mundo concreto da imaginação

Lápis que fala de um amor egoísta e travestido
Lápis que desenha fábulas de bichos que falam de amor
Porque os bichos são melhores personagens que os homens
Quando o assunto principal é qualquer uma das virtudes

Perdemos para os bichos
Nos perdemos nos bichos
E quando não somos o que somos
Somos, então, piores que os bichos verdadeiros
E tornamo-nos maus bichos
Bichos de mentira
Bichos mentirosos
Nas fábulas de mentira
E também nas fábulas de verdade
Que o lápis, todo madeira ocre
Tenta reluzir
Mesmo quando o tempo desce as cortinas da noite
E nada mais parece existir

Bichos não-bichos
E os bichos verdadeiros já são melhores que nós
Que inventamos o amor aprisionado em fábulas

Por Prof. Me. Danillo Macedo


terça-feira, 3 de abril de 2018

Tudo me lembra você




Acabei por achar sagrada a desordem do meu espírito
- Arthur Rimbaud -


Caindo para o abismo ou caindo do céu
Não importa
É sempre como o brilho da estrela que morreu

Não posso discernir o certo do errado
Mas o falso do verdadeiro

É como a morte do filho que viveu 30 segundos
É como a ponte levada pela força das águas

É como queimar o bolo de aniversário faltando uma hora para a festa começar
É quando a festa acaba e não tem mais aniversário
É quando amanhece e tudo o que foi parece não precisar ter sido
É quando tudo deveria ter sido, mas nada realmente foi
É quando tudo poderia ter sido um pouco mais para esmaecer-se um pouco menos

Como tudo se esvai, meu Deus: o café que tomei, a água com que me lavei, o beijo que eu lhe roubei... 

É quando a gente pensa no que deveria ter dito, mas logo pega no sono e se esquece de tudo o que aconteceu
É quando a gente se lembra do que aconteceu e se esquece do que deveria ter dito

Alzheimer ao contrário é a febre do amor
São espinhos que cortam a pele
Como o Bem são frases riscadas nas águas

Como pode, meu Deus, ser tão difícil de esquecer-se de algo sem importância que se acabou e por isso mesmo não deveria ser importante, mas que não lho tendo feito inteiramente fica nesta agonia mnemônica como se importante fosse?

Água esconde o corpo nu e exposto
A mesma água a cujo abismo caía
Mas te soergui e me apaixonei por ti
E fomos um de corpo e alma
Até que o rio virou mar
E não mais te vi
A não ser cair de um céu inesperado
No brilho opala do que não mais existia
Como podia, pois, haver de brilhar, não sabia...

As águas refletem-na durante a noite
Quando desce no álgido vapor noturno
Cada vez que a água passa é um pouco de tudo que fica mais longe
Cada vez que anoitece é um pouco do nada imóvel na face da mesma água que passa

Tudo me lembra você
(O brilho vivo da estrela que morreu)
Todas as noites eu acho que alguma estrela vai cair e te trazer de volta
Até que volta a ser dia e na água só vejo o mesmo rosto abatido
Do céu só cai esta chuva fininha
Recosto-me no travesseiro
Abraço o cobertor como se fosse o teu corpo
Sem saber como este brilho do que morreu também há de apagar-se um dia
No cerrar peremptório dos olhos fatigados

Prof. Me. Danillo Macedo 



O LETES


Trad: Ivan Junqueira

de Charles Baudelaire


Vem ao meu peito, ó surda alma ferina,
Tigre adorado, de ares indolentes,
Quero aos meus dedos mergulhar frementes
Na áspera lã de tua espessa crina;

Em tuas saias sepultar bem junto
De teu perfume a fronte dolorida,
E respirar, como uma flor ferida,
O suave odor de meu amor defunto.

Quero dormir o tempo que me sobre!
Num sono que ao da morte se confunde
Que o meu carinho sem remorso inunde
Teu corpo luzidio como o cobre.

Para engolir-me a lágrima que escorre
O abismo de teu leito nada iguala;
O esquecimento por teus lábios fala
E a água do Letes nos teus lábios corre.

O meu destino, agora meu delírio,
Hei de seguir como um predestinado;
Mártir submisso, ingênuo condenado,
Cujo fervor atiça o seu martírio,

Sugarei, afogando o ódio malsão,
Do mágico nepentes o conteúdo
Nos bicos desse colo pontiagudo,
Onde jamais pulsou um coração.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Degredo





Como o pungente presságio do címbalo que
Alarma o escaldo do tolo do Tempo
São estrépitos impudicos, o imo a fremir
Quis dizer assim: um degredado pensamento

Assim como a fênix dispersa em zênite pluvial
É aquele que se inflama sem teu conhecimento
Como o caracol invisível na cerração matinal
É este espasmo elucubrar sem teu envolvimento

Assim como o presságio do mal, Senhora
Como eu já houvera dito
Quando o bronze soa indicando o fim desta hora
Soa dizendo a si: “não sirvo pra mais que isto!”

Assim, foi por isso que disseram outrora:
“Conheço tudo, mas sou um miserável sem amor”
Como o bronze que ressoa este choro estrupido
Não te sirvo, a não ser pra fecundar tua dor!

Assim como o escalpelo de oblongas incisões
Enquanto a epiderme sequer sente o bisturi atroz
Sou eu ao concatenar tão confusas canções
Sem teu toque a aprovar o eflúvio de minha voz!




Prof. Me. Danillo M. L. Batista

domingo, 12 de novembro de 2017

A uma passante, de Charles Baudelaire


Tradução de Ivan Junqueira


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania, 
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!





domingo, 22 de outubro de 2017

A viagem







Meu sangue, do pragal das Altas Beiras,
boiou no Mar vermelhas Caravelas:
À Nau Catarineta e à Barca Bela
late o Potro castanho de asas Negras.
E aportou. Rosas de ouro, azul Chaveira,
Onça malhada a violar Cadelas,
Depôs sextantes, Astrolábios, velas,
No planalto da Pedra sertaneja.
Hoje, jogral Cigano e tresmalhado,
Vaqueiro de seu couro cravejado.
Com Medalhas de prata, a faiscar,
bebendo o Sol de fogo e o Mundo oco,
meu coração é um Almirante louco
Que abandonou a profissão do Mar.
– Ariano Suassuna, “Dez Sonetos com Mote Alheio”. Recife: edição manuscrita e iluminogravura pelo autor, 1980.